Conheça os argumentos contra e a favor do projeto das debêntures do Inter


O Inter está diante de uma encruzilhada. Afundado em dívidas e pagando altas somas em juros, o clube está perdendo, por falta de dinheiro, competitividade para encarar no campo adversários mais endinheirados. A atual gestão, liderada pelo presidente Alessandro Barcellos, propôs um plano para captar R$ 200 milhões junto à investidores utilizando um projeto de debêntures. A ideia é utilizar esse dinheiro para pagar outras dívidas, com juros maiores, principalmente junto à bancos.

O problema é que há a exigência de incluir o Beira-Rio como garantia da transação, o que causa calafrios em parte dos colorados. O estádio passaria por uma “alienação fiduciária”, passando para o nome dos investidores até que a totalidade da dívida fosse paga.

O Conselho Deliberativo se reúne segunda feira para votar o projeto. Por isso, o CP convidou dois colorados que dominam o tema, um contra e outro a favor, para apresentarem seus argumentos.

Leandro Bergmann (vice de finanças do Inter): “Foco é aumentar a capacidade competitiva”

A situação econômica e financeira do Inter é muito preocupante, agravada por uma dívida crescente, que compromete a nossa capacidade competitiva, gerando mais de R$ 80 milhões de despesas financeiras anuais. Estamos terminando um ano muito duro, em que, infelizmente, não vencemos. Afetados pela tragédia da enchente, priorizamos a reconstrução do nosso patrimônio e da nossa equipe. Mas o processo de transformação do futebol não espera pelos debates internos do clube: vence quem possui mais investimento. Diante dessa realidade, precisamos adotar ações pragmáticas.

A gestão vem trabalhando em ações estruturais, pensando no Inter do futuro. Contratamos uma das principais consultorias de estratégia do mundo para um projeto de crescimento expressivo nas nossas receitas orgânicas. Com foco em gestão e inovação, estamos empenhados em reduzir as nossas despesas operacionais. Além disso, em um ano de grandes expectativas, estabelecemos um custo do futebol mais eficiente, associado à expansão do projeto das categorias de base. Recentemente, enviamos à mesa do Conselho Deliberativo uma proposição para um debate maduro sobre o modelo de investimento do Inter para seu futuro.

Nesse conjunto de ações, um dos fatores que mais impactam nossa competitividade em campo é o nosso endividamento. Há vários meses, temos nos dedicado ao estudo de novas e mais inteligentes estruturas de financiamento. Avançamos na construção da iniciativa das debêntures, comum no mundo corporativo, mas uma inovação na indústria do futebol. Prevemos uma captação de R$ 200 milhões, voltada para mudar o perfil de parte da dívida, com redução do custo financeiro (cerca de 25%), alongamento do pagamento (5 anos) e maior capacidade de negociação com credores. Trata-se de uma operação feita sob as melhores regras de governança do mercado de capitais.

Temos observado o debate sobre a inclusão do nosso estádio como parte das garantias, por meio da alienação fiduciária. Estruturamos garantias prévias, que têm como base o fluxo de algumas das nossas receitas ordinárias, com plena margem de segurança.

É natural que tudo o que envolva nossa paixão e nosso inestimável patrimônio gere inquietações. Posições extremadas, contudo, não constroem. Somos, como todos os colorados, cientes da nossa responsabilidade, e nosso foco é aumentar a capacidade competitiva do nosso clube de maneira saudável. Não acreditamos ser possível construir uma nova dimensão para o nosso clube senão pelo caminho da serenidade, do debate construtivo, da inovação e da absorção de novos modelos e formas de implementar a construção das etapas necessárias. O projeto das debêntures é mais um passo importante nessa direção.

Alexandre Chaves Barcellos (conselheiro): “Dar o Beira-Rio como garantia é inaceitável”

O Conselho Deliberativo do Inter está diante de uma decisão histórica. A gestão propõe uma operação para emissão de debêntures, na qual estão previstas garantias fiduciárias, sendo a principal a alienação do “complexo Beira-Rio”. A motivação? Buscar até R$ 200 milhões para o pagamento de outras dívidas. E o risco? De o clube perder sua casa, construída tijolo por tijolo por gerações de colorados.

Comparo essa decisão com aquela tomada anos atrás, quando o Conselho alterou a modalidade de reforma do estádio, liderado pelo então presidente Giovanni Luigi. Naquela oportunidade, o Conselho salvou nosso maior patrimônio de uma aventura. Agora, os fatos se repetem: novamente o Conselho é convocado a “salvar” o Beira-Rio. Os conselheiros de hoje certamente entrarão para a história. Aqueles que autorizarem colocar em risco nosso maior patrimônio terão seus nomes marcados na memória de cada colorado, caso os pagamentos dessa operação não sejam cumpridos em dia e o Beira-Rio passe a ser propriedade de terceiros.

A proposta da gestão não condiz com a realidade pelos seguintes motivos:

1. Há uma restrição na matrícula da área do Beira-Rio que impede a constituição de gravame. A alienação fiduciária, inclusive, é o pior tipo de gravame para o devedor, pois transfere, desde já, a propriedade resolúvel do bem para o credor. Alguém sabe quem será o novo dono do Beira-Rio?

2. A gestão sinaliza que o Beira-Rio seria a última garantia a ser executada. Essa afirmação não possui respaldo no contrato. O quadro social está comprometido com outras operações e não consta a obrigatoriedade de executar garantias antecedentes.

3. Não há garantia de que essa operação terá êxito, pois nem a taxa de juros a ser paga para remunerar as debêntures está definida. Além disso, não existe um plano de ação claro para a utilização dos valores que o Clube venha a receber.

4. Há absurda desproporção entre o valor que o Clube espera arrecadar (até R$ 200 milhões) e o valor do estádio (R$ 1 bilhão). É inconcebível transferir a propriedade do estádio para conseguir algo em torno de R$ 100 milhões em dinheiro novo — um valor sequer garantido pelos documentos analisados, já que os outros 100 milhões são ‘rolagem’ de passivos anteriores.

5. Essa gestão já demonstrou sua incapacidade de reduzir o endividamento, mesmo com “dinheiro novo”. Em 2023, após receber R$ 109 milhões da Liga Forte União, a dívida aumentou, o que evidencia descontrole entre receitas e despesas.

Vale lembrar que medidas para o controle das contas do Clube são necessárias, assim como a busca por novas receitas e alternativas para enfrentar o endividamento. Todavia, alienar fiduciariamente o maior patrimônio de todos os colorados é inaceitável.


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