Participação feminina nas Olimpíadas é uma batalha por representação que remonta aos primeiros Jogos Olímpicos


FALTAM 19 DIAS PARA OS JOGOS OLÍMPICOS DE PARIS-2024

A luta por uma representação feminina mais justa nos Jogos Olímpicos é uma longa corrida. Desde os primórdios do torneio, na Grécia Antiga, a participação de mulheres no torneio era expressamente proibida, não só nas competições como na plateia. Só podiam competir ou torcer cidadãos gregos, ou seja, homens livres nascidos na Grécia. O costume se estendeu também na primeira edição dos Jogos na Era Moderna, em Atenas-1896, onde nenhuma mulher foi autorizada a participar. Quatro anos depois, em Paris-1900, para o desgosto do fundador do torneio, o Barão de Coubertin, a presença feminina foi autorizada nas disputas, mesmo que em pouca quantidade. “É indecente ver mulheres torcendo-se no exercício físico do esporte”, disse o barão na época. Apenas 22 mulheres de um total de 997 atletas foram autorizadas participar, o equivalente a 2% dos participantes olímpicos.

Porém, a presença das mulheres era permitida apenas em provas de “natureza feminina”, como o golfe, a vela e o tênis. Assim, na ocasião, a primeira campeã olímpica foi uma inglesa, a tenista Charlotte Cooper, que já era tricampeã em Wimbledon. Na edição de Saint Louis-1908 outras modalidades foram permitidas para as mulheres, como o tiro com arco e a patinação artística. Apesar do avanço, apenas seis atletas participaram do torneio. Naquele ano, elas foram oficialmente admitidas na disputa, mesmo que de maneira ainda muito restrita. Diante das inúmeras recusas do Comitê Olímpico Internacional (COI), diversas atletas organizaram a Federação Internacional de Esportes Femininos (FSFI), que fundou os Jogos Olímpicos Femininos, com quatro edições entre 1922 e 1934.

A pressão da Federação surtiu efeito e os Jogos de Amsterdã-1928, com a saída de Coubertin do COI, foram um ponto de virada para a inclusão das mulheres na disputa. Pela primeira vez, elas puderam participar nas modalidades de corrida de velocidade (100 metros, 400 metros, 800 metros) e salto em altura, além de marcarem presença em peso no torneio, com 277 atletas, cerca de 10% do total de competidores.



Derrotando as adversárias e o preconceito, Charlotte Cooper foi a primeira medalhista olímpica mulher da história
| Foto: Divulgação / CP

Em Los Angeles-1932, a delegação brasileira teve, pela primeira vez, uma representante na delegação: a nadadora Maria Lenk. Com apenas 17 anos, ela foi a única mulher entre 82 atletas da delegação. Apenas 66 desembarcaram e competiram, já que era preciso pagar a taxa de um dólar para o desembarque de cada atleta. Como a delegação não contava com reservas suficientes, apenas os que tinham reais chances de conquistar medalhas na competição desembarcaram. Lenk estava neste grupo. A atleta disputou as provas de 100m livre e 200m peito.

Trinta e dois anos mais tarde, na edição de Tóquio-1964, novamente apenas uma mulher integrou a delegação brasileira na Olimpíada. Depois de passar por diversas modalidades, como vôlei e basquete, foi no salto em altura que Aída dos Santos ganhou destaque ao saltar 1,65m em uma prova em São Caetano do Sul e atingir o índice olímpico. Nas eliminatórias da disputa, conseguiu saltar 1,70m para chegar à final, mas torceu o pé na aterrissagem do salto. Mesmo machucada, atingiu a marca de 1,74m. Ficou a 4cm do pódio, mas conseguiu o que era até então o melhor desempenho de uma atleta brasileira em Jogos Olímpicos: um quarto lugar.

Foi apenas na edição de Los Angeles-1984 que as mulheres foram permitidas a participar da maratona olímpica, do nado sincronizado e do ciclismo. Outras categorias, como levantamento de peso, polo aquático, remo e luta livre, também levaram cem anos para permitir a modalidade feminina nas competições olímpicas. Além disso, a edição na cidade norte-americana marcou a participação de 781 atletas de 5516 no total.





A nadadora Maria Lenk foi a primeira brasileira a participar dos Jogos Olímpicos
| Foto: Reprodução / CP

Cem anos depois da edição inaugural do torneio, os Jogos de Atlanta-1996 testemunharam pela primeira vez a presença de brasileiras no pódio. Na estreia do vôlei de praia no programa olímpico, duas duplas brasileiras chegaram à final da disputa. Jacqueline Silva e Sandra Pires alcançaram o pioneirismo e foram as primeiras atletas brasileiras a subirem no lugar mais alto do pódio nos Jogos. Até então, o melhor resultado do país havia sido o quarto lugar de Aída dos Santos no salto em altura em Tóquio-1964, igualado pela seleção de vôlei em Barcelona-1992. Além do vôlei, a seleção brasileira de basquete levou a medalha de prata na edição, com o ícone da modalidade Hortência.

De volta à terra de origem, em Atenas-2004, a participação feminina aumentou para mais de 40% dos atletas. Mas foi nos Jogos Olímpicos de Londres-2012 que marcaram outro ponto de virada na história olímpica feminina, devido ao recorde de participação até hoje. Um total de 10.568 atletas participaram do evento celebrado no Reino Unido: 5.892 homens e 4.676 mulheres. Além disso, foi a primeira edição olímpica em que todos os países tiveram uma mulher entre seus atletas.


Em mais de um século de história, a competição esportiva mais importante do mundo se adaptou às mudanças sociais e passou de um movimento que excluía as mulheres para um espaço de inclusão e diversidade. Em Paris-2024, pela primeira vez na história dos Jogos, o número de mulheres e homens competindo será exatamente o mesmo. Um avanço considerável para o evento, embora ainda tenha muito caminho pela frente.



Hortência foi o ícone do basquete feminino do Brasil, prata nos Jogos de Atlanta-1996
| Foto: AFP / CP Memória





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